O que eu ouço quando recebo o teu projeto
Há uma coisa que acontece sempre que recebo um projeto novo. Antes de mexer em qualquer coisa, antes de abrir um plugin sequer – eu ouço.
Só ouço.
Não estou a avaliar tecnicamente. Não estou a pensar em frequências, nem em dinâmica, nem em se o kick está muito alto. Estou a tentar perceber o que a música quer ser.
É uma distinção importante.
A intenção
A primeira coisa que ouço é a intenção. O que é que o artista estava a tentar dizer quando gravou isto? Há músicas que chegam com uma energia muito clara – ouves e percebes imediatamente o destino. Há outras que chegam com potencial mas sem direção, e é aí que o meu trabalho começa de forma diferente.
Depois ouço o espaço. Não o reverb – o espaço emocional. Onde é que esta música vive? Num quarto às 2 da manhã? Num festival? No carro num domingo à tarde? Isto dita mais decisões do que qualquer parâmetro técnico.
Só depois disso é que começo a pensar em pormenores.
Há quem me pergunte se ouço a rough mix antes de começar. Não tipicamente. Ouço a soma das pistas.
Não é que a rough esteja errada – de todo. A rough mix é o resultado de semanas de trabalho dos produtores e e artistas – há decisões, hábitos e afeto embutidos naquilo. Se a ouço primeiro, estou a ouvir as escolhas deles, não a música (meio esotérico, eu sei). É criar uma demotite mas do lado do técnico: já fico com uma versão “certa” na cabeça antes de formar a minha própria opinião sobre o que as pistas precisam.
E eu preciso de chegar à música sem filtros.
Reparar vs. Esculpir
Há uma crença muito comum de que um técnico abre uma sessão e começa a “reparar coisas”. Que o trabalho é corretivo. E às vezes é, sem dúvida, mas a maioria das vezes o que estou a fazer não é reparar. É esculpir.
A diferença? Reparar parte do pressuposto de que algo está errado. Esculpir parte do pressuposto de que já lá está, só precisa de ser revelado.
O que não está gravado
Ouço também o que não está gravado.
Lá está ele outra vez com “as vibes” – ouço-vos a pensar. Mas há uma camada na música que não existe nos ficheiros áudio – existe na cabeça do artista ou do produtor. Por vezes está na referência que me mandaram. Na forma como descreveram o projeto no email. No entusiasmo (ou na falta dele) com que falam do tema.
Tudo isso entra na mistura.
Antes de ter opiniões
Por isso quando me perguntam “o que é que tu fazes exatamente?” – a resposta honesta é: ouço musica.
Não é magia. A música fala contigo. Às vezes tens de estar calado o suficiente para ouvir.
