Demotite

Para que o artigo faça sentido, vou deixar aqui umas pequenas definições.

Para mim há uma distinção entre uma demo e uma rough mix.

A demo é feita por alguém sem nenhum conhecimento de áudio e no geral soa tudo muito cru, sem polimento; A rough mix é feita por alguém que percebe áudio e quer que saiam do estúdio com uma versão do tema que se aproxime ao que pode vir a ser o trabalho final.

Neste artigo, para efeitos de clareza, uma demo é um rough mix e o trabalho final é a primeira versão da mistura/master.

O que é a Demotite?

Deixa-me começar por dizer que nem sempre é mau ter demotite mas é importante reconhecer quando se tem e tentar ser objectivo.

Demotite é um termo cunhado por Matthew Good e é o que acontece quando ouves tanto a versão demo de algo que, quando escutas o trabalho final, é difícil de aceitar.

Se à primeira audição disseste “…não sei, há algo que está a faltar…” ou “…perdeu a vibe/magia…” ou “tá tudo errado”, estás com demotite. Se tens por hábito comparar a versão final com a versão demo quando estás a tomar notas de coisas a alterar, provavelmente deves estar com demotite.

Como combater esta maleita?

Comparar a demo com o trabalho final é um erro, deves comparar o trabalho final com a sonoridade com a qual vai competir. Não tens de soar igual ao resto, não é isso que estou a dizer. O exemplo que normalmente dou é o seguinte: se fazes Pop music e tens a sorte da tua musica entrar numa playlist com outros artistas Pop é importante que a tua musica fique taco-a-taco com o resto. Eu costumo usar a palavra competir, mas não é a palavra certa.

Imagina estar a dar Drake, Ariana Grande, Ed Sheeran e de seguida entra a tua musica e está abafada, ou com poucos graves, ou com a voz muito baixa, ou o tema todo a tocar baixo, etc.

Na prática, como posso ser objectivo ao avaliar o trabalho final?

  • Ouvir a demo só quando é preciso (eu sei que é difícil). Para não te habituares aos erros e te afeiçoares a eles;
  • Antes de receber o trabalho final estar umas semanas sem ouvir a demo. Assim quando fores ouvir o trabalho final já tens o palato limpo;
  • Cria uma playlist no telefone ou computador com algumas músicas que gostas (a.k.a. referências) – e que enquadram com a estética que estás à procura – e coloca nessa playlist a versão final e a demo.

Nem tudo está mal com a demo.

Por vezes há coisas a reter da demo – e é aí que é importante ser objectivo – pode haver realmente qualquer coisa na demo que lhe dê um certo charme. As vozes terem mais ou menos Auto-Tune, o reverb estar mais alto na demo ou ser um reverb diferente do que usaram no trabalho final. Pequenos efeitos que possam não ter sido recriados.

Não há um certo ou errado na mistura. Diferentes técnicos vão dar-te diferentes resultados.

Eventualmente, a rough mix está mesmo próxima daquilo que procuras e só precisa de um master. Aí entram as referências. Compara a demo com as musicas com as quais vais competir.

Objectividade e Comunicação

Em jeito de conclusão, é importante perceber e saber comunicar aquilo que se pretende com o trabalho final. Daí a objectividade. Restringir o técnico que vai misturar o tema à demo, é por vezes limitar o potencial da musica.

Acho que falo por todos os técnicos quando digo: Nunca começo uma mistura com o objectivo de estragar a música, é sempre para melhorar e trazer ao cimo o sentimento que a musica pede.

Written by: Mic