A mesa de mistura?

Category : Opinião
Date : September 19, 2018
A mesa de mistura?

Tens um estúdio profissional? Porque não tens uma mesa de mistura daquelas famosas, uma SSL ou uma Neve? Tens a rack tão vazia, não tens mais compressores?

Uma mesa de mistura, embora seja bonita e prática, tem uma série de desvantagens que tombam a balança para o Não. Isto, num ponto de vista de mistura.

Na minha opinião a mesa de mistura – dependendo do gênero de música que mais trabalhas – está obsoleta. Manter uma mesa de mistura é uma despesa muito grande tendo em conta as desvantagens que traz para o meu ritmo de trabalho.

Mas é prática ou não é prática?

Em 2018, a velocidade a que a musica é feita e consumida implica contornar a mesa de mistura para que o workflow e o recall seja imediato. Não há nada como abrir um projecto, fazer um “save as… edit X“, descer uma harmonia, exportar e enviar para o artista.

Depois há a questão do commitment, decidir sobre um som/estética e assumir que é assim que vai soar.

Exemplo: quando termino uma mistura em Janeiro e o artista/produtor se lembra em Março de dizer: “Mic, tas a ver aquela guitarra no tema X? Opa, cruzei-me com o guitarrista Y e ele vai tocar uma cena naquela vibe mas com um feeling mais coiso, tás a ver? Eu curti o som que deste, aquela distorção e FX tão no ponto, vou te enviar o sinal clean da DI e é só substituir!” 

Se usei o Guitar Rig é tranquilo. Se usei 3 pedais, um amp e uma coluna (que por acaso estava emprestada aqui ao estúdio duma outra sessão), tudo a entrar para a mesa onde estou a usar EQ e a fazer um envio para um reverb externo, já não vai ser tão rápido assim. Vou ter que me lembrar do que fiz e tentar aproximar o som ao que estava. Isso implica perder um dia a refazer tudo para uma linha de guitarra e no fim podem não gostar da mudança.

Há artistas que lidam bem com estas alterações, há outros que perguntam “Isso tá igual? Parece que não ficou com a mesma energia.” Esta pergunta acontece quer seja só copiar o preset do Guitar Rig quer seja perder o dia a refazer o som. Copiar o preset é uns minutos, refazer um som são horas. Mais tempo implica mais despesa para o artista. E ninguém quer gastar mais do que o estritamente necessário.

Quando as contas aumentam

Outra coisa que muitos artistas não sabem é a despesa que é ter uma mesa. É quase uma renda.

Uma mesa clássica tem de ter uma fonte de alimentação para alimentar todos aqueles canais, a longo prazo, para aumentar o tempo de vida dos componentes e poupar em custos de manutenção, é preferível deixar a mesa ligada 24/7. Isto aquece, ou seja a alimentação da mesa convém estar numa sala à parte com ventilação e controlo de temperatura via A/C para não ser um desconforto na régie. Se a mesa está ligada 24/7, a ventilação e A/C também têm de estar. Conta com um mínimo de 300€ todos os meses só para isto.

Mesmo tendo este cuidado, convém chamar alguém especializado pelo menos uma vez por ano, só para rever a mesa para confirmar se está tudo bem. O preço à hora no estúdio tinha de subir para poder manter a mesa.

#EyeCandy

É claro que para o insta, estar em frente a uma mesa de mistura manda uma pinta do caneco. #StudioPorn. Tanto os artistas como os técnicos adoram. Mas se prestarem atenção a fotos tiradas quando a malta está em work mode, vão reparar que a mesa de mistura não passa de uma mesa para pousar o rato e o teclado do PC, para o produtor pousar o portátil, serve também para controlar o volume das colunas – às vezes – e para ver os VU’s e as luzinhas a piscar.

Não vou estar aqui a cascar na malta, há técnicos que aproveitam a mesa para somar grupos, ou seja a mistura é feita in the box e depois é feito um print do tema – que passa por grupos na mesa – de volta para o PC.

Feitas as contas

No final, o ouvido comum, o consumidor da música, não faz ideia em que mesa foi misturado e se foi misturado numa mesa sequer. Se a música for boa, isso tudo tanto faz.

Não me interpretem mal. Eu gosto de outboard e gosto de mesas de mistura. Só acho que nem sempre é viável na fase de mistura.

Quando estamos a gravar, isso já é outra história!

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